• Curso de Verão

Depoimento: cursista migrou da Venezuela para o Brasil em 2016

Lucelia Arrioja buscou melhores condições para o filho e enfrentou preconceito e barreiras.



A 32ª edição do Curso de Verão traz neste ano o tema “Por uma cidade acolhedora: somos dos os migrantes” e a oportunidade dos cursistas refletirem sobre o tema da migração, tão presente nos tempos atuais.


Entretanto, entre os cursistas, há quem já tenha vivido essa experiência na própria pele, ao ter saído de seu país natal para vir morar no Brasil, onde hoje participa do Curso de Verão. Migrantes têm participado da reflexão sobre o tema e auxiliado no aprendizado coletivo a partir da sua história de sua vida.


É o caso de Lucelia Arrioja, 32, que participa nesta edição da tenda “Metodologia de Trabalho com Grupos Populares”. Bióloga e perita forense, ela se mudou da Venezuela para o Brasil há mais de dois anos em busca de uma melhor qualidade de vida para o seu filho, quando ainda estava grávida. “A experiência de migrar é incrível. Você está em um momento estável e em outro momento chega sem nada em um lugar desconhecido, com pessoas desconhecidas e, além disso, com um idioma que não conhece”, conta.


Lucelia falou à equipe de comunicação do Curso de Verão sobre a história, sobre o preconceito que sofreu no país durante a sua adaptação e sobre todas as barreiras que enfrentou e ainda enfrenta.


Hoje professora de informática e de línguas, ela acredita que o curso possibilita a todos que construam um pensamento mais humano sobre a migração “ao longo do bairro, na comunidade, na sociedade e, finalmente no país”.


Confira o depoimento na íntegra:

Meu nome é Lucelia, eu venho da Venezuela. Estou no Brasil há dois anos e quatro meses. A minha história começou desde a minha gravidez. Eu fiquei grávida, aí no terceiro mês aconteceu uma emergência e, no lugar onde eu me encontrava, não conseguia atenção médica oportuna. Depois, tive que ir a outra cidade e recebi a atenção. Depois comecei a pensar com o meu marido: “se nós ficarmos aqui, como vamos fazer com o nenê, se ele tiver alguma coisa?”, mesmo ele tendo dois trabalhos e com plano de saúde. Isso já não era suficiente. Então começamos a pensar: “vamos ter que sair daqui” e começamos a vender as nossas coisas de casa. Tínhamos uma moto e estávamos construindo uma casa para nosso filho e para nós. Tudo parou, o tempo parou.

Compramos a passagem, a dele era até Boa Vista (RR), e de Boa Vista (RR) para São Paulo (SP), e ele chegou um mês antes de mim. Pedi dinheiro emprestado, peguei um voo de Caracas para Panamá, e de Panamá para São Paulo, tinha oito meses de gravidez e o cuidado foi maior. Cheguei, ele conseguiu trabalhar em um hortifrúti e eu fiquei em casa, fechada, depois de ter tido uma vida independente. Eu sou bióloga, era perito forense e trabalhava em universidade com a parte de pesquisas de vírus e outros agentes infecciosos. Tivemos que nos virar, procuramos um curso de português porque, infelizmente, o idioma é uma barreira para nós, mesmo tendo uma profissão.

Conhecemos o Centro de Integração do Imigrante no Brás (bairro de São Paulo), sob a coordenação da irmã Margareth, e a primeira coisa que nos ajudou foi com uma cesta básica, porque, naquele mês de dezembro, a pessoa que o contratou para trabalhar estava de férias e ele ficou sem trabalho com filho pequeno de um mês que precisava de fralda, leite, de tudo isso. Deu-nos a cesta e, o dinheiro que ele conseguiu arrumar, foi para comprar as coisas do filho.

Depois começamos o curso, ele começou em um horário e eu em outro, para eu tentar começar algum trabalho, e depois a irmã Margareth pensou em mim para começar a dar aulas de informática para migrantes também. Porque a maioria dos migrantes que temos no Brás chega da Bolívia, do Peru e, agora, da Venezuela, de diferentes lugares. Então precisava de alguém que falasse o espanhol e eu comecei a trabalhar o português mais rápido, porque precisava. Comecei a dar as aulas no ano passado e já me contrataram para atender ao público e ainda dar aulas de informática e de espanhol no centro de integração.

Mas, no primeiro ano, foi difícil. Meu marido é enfermeiro e professor. Nem ele, nem eu conseguimos validar nossos diplomas e trabalhamos de qualquer coisa, vendendo algo na rua, de garçom, ajudando em marcenaria. Em alguns casos, pessoas que não gostavam de nós falavam que viemos para cá para tirar o emprego, etc. Mas a verdade é que não foi isso, saímos de lá para dar uma melhor qualidade de vida para o nosso filho e para poder trabalhar em alguma coisa e enviar dinheiro. A minha família ainda está lá e a dele também ainda está lá e precisam da nossa ajuda.

A experiência de migrar é incrível. Você está em um momento estável, tem toda a família, raízes, origens, e em outro momento chega sem nada em um lugar desconhecido, com pessoas desconhecidas e, além disso, com um idioma que não conhece. Aqui é começar desde o zero, é renascer para nós. É começar a engatinhar, a falar, comer, acostumar-se com a cultura, com as tradições daqui, e deixar um pouquinho de lado as suas. Não se perde, pois você vai levar sempre no coração e na mente, mas tem coisa que você não vai conseguir fazer igual como fazia lá em casa.

Agora, estamos mais tranquilos. Não estamos mais trabalhando em nossa área. Ele está trabalhando como orientador de crédito aí no centro (da cidade) e agradecemos a Deus pelas oportunidades, pelas pessoas boas e as não tão boas, pois elas fazem parte desse caminhar da migração de conhecer, virar-se e se adaptar àquilo novo que está chegando, pois precisa amadurecer. Falo para o meu companheiro que eu tenho 32 anos e amadureci, nesses dois anos, mais do que pude em meus 30 anos. Foi muito difícil ter o meu filho sozinha aqui, não ter ninguém para ajudar, não conseguir falar no hospital o que sentia (por conta da barreira do idioma) e as pessoas olhavam feio porque você não falava ou era de outro lugar. Não ter ninguém com quem falar, com quem chorar, só dentro do quarto. Muitas vezes, não ter dinheiro para enviar para a família, pois sequer tinha para comprar comida aqui. É uma mescla de emoções e de sentimentos que, no fundo, ajudam a fortalecer para continuar e não ficar parado. A vida é feita de oportunidades. Se você caminha, busca, procura, pergunta, vai encontrar. Mesmo sempre encontrando pedras no caminho, você tem que tentar pulá-las para continuar vivendo, crescendo e, nesse caso, nós como migrantes, para contribuir com nossas vivências, nossas culturas.

Nossa tradição aqui também pode acrescentar. Essas vivências que vocês têm aqui podem nos ajudar a melhorar e, essa melhora, não vai ser apenas para os migrantes, mas para o país e para quem é daqui.

Ontem eu falava que peguei uma frase de ONG que falava: “não me julgue antes de me conhecer”. Porque sou mais do que um rosto, eu sou uma história, um caminho, um conjunto de coisas desconhecidas que pode ajudar você também a crescer. Então eu não vim aqui tirar a vaga de trabalho de ninguém, só vim aqui buscando uma oportunidade de melhorar a minha vida, a vida da minha família aqui no Brasil e a vida da minha família na Venezuela. Fico com muita saudade de voltar em algum momento, só que as condições (no outro país) cada vez mais pioram. Então a ideia é ir trazendo um por um para poder ajudar também a melhorar.

Sobre o Curso de Verão, é um tema que está agora muito no ar. Todo mundo quer falar algo sobre a migração. Acho que na minha experiência no centro, entendi o que significa a migração, o que significa chegar em um lugar e como eu queria que me acolhessem nesse primeiro momento, o que não aconteceu, mas, tudo bem. Agora eu tento, junto com a equipe que eu trabalho, fazer o que eu senti que tinham que ter feito comigo naquele momento. Não é um trabalho fácil, o migrante traz consigo muitas coisas que a gente tem que começar a entender. Às vezes, um olhar diz mais do que uma palavra. Aí você tem que começar a entender o idioma desse olhar, dessa respiração, desse abraço, desse toque. Às vezes é, muito mais importante do que uma palavra, um abraço. Aí você sente que está sendo bem-vindo, reconhecido como um ser humano e, não, como um estrangeiro que vem tirar vagas ou invadir o seu país.

O meu país era um país receptor de migrantes. Agora, estão saindo e essa saída está sendo feita em massa e muitas pessoas estão ficando chateadas, pois têm muito venezuelano por aí na rua tentando conseguir o mínimo emprego para poder, pelo menos, comer, dormir e enviar dinheiro para as suas famílias. Então é bom esse tipo de evento, pois este tema, além de ser um tema que todo mundo está falando, precisa sensibilizar as pessoas. Olhe para quem está do lado, olhe para ele. Pergunte, fale, escute e, dessa escuta, você vai conseguir aprender muitas coisas que pensa que sabe, mas, não é assim. Na vida, sempre aprendemos de tudo, desde os pequenos até os idosos. Então é sempre uma troca de experiências que nos ajuda a ser melhores e ser mais humanos, como dizia hoje o Américo (Sampaio, assessor que abordou, nas palestras do Curso, a desigualdade territorial e social e sobre mobilidade urbana). Precisamos ter esse pensamento mais humano no momento de aproximar e de planejar a construção de um projeto. Pode ser uma cidade, mesmo uma família.

Aqui tem muitos jovens. Pode ser uma oportunidade para eles. Porque, desde com a sua família, eles podem começar a ser diferentes ao longo do bairro, na comunidade, na sociedade e, finalmente no país.



Arthur Gandini / Comunicação / CV 2019



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