“Para assumir uma espiritualidade libertadora é preciso fincar os pés na realidade”

Maria Soave durante a assessoria no TUCA.

Há mais de 30 anos, Maria Soave Buscemi, missionária leiga, italiana de origem e naturalizada brasileira, está presente em diversas atividades pelo país como educadora e biblista popular. Atualmente destaca-se como assessora nacional do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) para as hermenêuticas ecofeministas e de gênero. No dia 11 de janeiro de 2020, mais uma vez ela deixou a sua marca como facilitadora de leitura popular da Bíblia ao apresentar o tema “Por que sete é mais do que doze? A espiritualidade libertadora de Jesus, o Cristo” no 33º Curso de Verão, realizado pelo CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular), e que acontece todo ano na PUC-SP.


A sua aguçada apresentação despertou o interesse dos cursistas por trazer outra proposta de leitura epistemológica, ou seja, Maria Soave provocou a todos para uma nova forma de encarar a vida, o mundo e as relações, tornando capazes de perceber e interpretar as ações como sendo resultados das impostações do pensamento ocidental-helênico que determina a cabeça como lugar fundamental da vida. No entanto, as tradições religiosas mais antigas dizem que tudo começa pelo chão, com os pés fincados na realidade. “Onde pisam os pés, a cabeça pensa e o coração ama”, afirmou.


Romper com o pensamento neocolonialista

"Ninguém é tão rico que não tenha nada para receber, e tão pobre que não tenha nada para dar"

Segundo a assessora é urgente e necessário romper com esta concepção helênica para encontrar o ponto interpretativo da vida e da fé e, assim, compreender a realidade humana e suas relações “a partir do chão, das práticas, dos corpos, dos contextos de onde nossos pés pisam”. Esta concepção helênica é percebida, por exemplo, quando nos referimos à tradição religiosa ocidental judaico-cristã que ensinou uma grande mentira ao afirmar que o patriarca Jacó teve 12 filhos e, no entanto, na verdade eram 13. Havia também uma filha chamada Diná, isso significa que na história de Israel antigo não existiam, de forma simbólica, 12 e sim, 13 tribos.


Soave enfatizou que a 13ª tribo, formada por Diná, representa a tribo da qual ninguém fala, que ficou emudecida e escondida, que a encontramos hoje espalhada pelos bairros de nossas cidades e pelo mundo, que nunca é mencionada nos espaços formais da história oficial. Dessa forma, a assessora afirma que este pensamento neocolonialista, por ser construído pelo branco, macho, elitista e militar, que gera o racismo, o machismo e que permanece fortemente entre nós, precisa ser rompido.


Quando 13 é mais do que 12 – conversão místico-política

Para atingir este intuito, Maria Soave, convoca todos para uma conversão místico-política, isto é, fazer com que estas duas palavras juntas e num mesmo respiro revelem uma experiência profunda de ter encontrado Jesus com a sua proposta evangélica de vida. O número 13, presente nas 13 tribos de Israel, nos 13 apóstolos, nas 13 luas, nos leva a uma espiritualidade libertadora a partir da experiência de Jesus. “Precisamos passar do 12 - entendido como o jeito de estar no mundo de religião machista, elitista, branca e militar - para o 13, como um espaço que possa acolher todas, todos e tudo no respiro da vida”, disse.


Soave, ao analisar a realidade brasileira, afirma que estamos vivendo uma noite escura. “Em tempo de noite escura, as pessoas mais superficiais procuram respostas rápidas e fáceis”. Respostas dualistas e com formas polarizadas que muitas vezes impedem de visitar o ponto de vista do outro, fechando-se na arrogância. Duvidar é um sinal de extrema inteligência porque abre espaço nas relações para perguntas. A fé é alicerçada na narrativa e no testemunho da vivência.


A espiritualidade libertadora passa pelo caminho da Cruz

A transformação de 12 para 13 passa pelo caminho da Cruz. “Não se trata de algo que se escolhe, mas sim, uma experiência que pela sua prática e testemunho os poderosos vão colocar nas suas costas a Cruz. Ser de Jesus significa entrar em conflito, viver o conflito neste tempo, no agora da história. Se a nossa prática não entra no conflito é porque abraçamos os poderosos”, alerta a assessora. Por este motivo Jesus não morreu, ele “foi matado”. Podemos afirmar que foi um homicídio e, logo após, um genocídio, devido aqueles que morreram ao abraçar esta fé. Quem matou? O Império Romano e o Templo. Por quê? No movimento de Jesus não tinha judeu nem grego, isto é, nem puro ou impuro, mas sim, todos e todas em Jesus e pela graça são puros, salvos e salvas.


O lugar da Cruz, do crucificado, da 13ª tribo, dos crucificados e crucificadas da história, é o lugar de onde surge a espiritualidade da nossa fé. Maria Madalena está sempre aos pés da Cruz. Ela é apóstola de fundamental importância cristológica. Existiam também outras mulheres que não arredam o pé, permanecem porque tinham servido (acolitado) e seguido (“diaconava”) Jesus desde a Galileia. Galileia é um lugar histórico-político porque significa “nada e ninguém”. Abraçar os corpos da 13ª tribo na Galileia é muito mais do que uma ideia: elas, com Jesus que desceu, subiram com Ele até a Cruz. “Somos assim, muitas vezes não temos a resposta, não sabemos, perante a dor que sofremos diante de tantas lutas, mas não arredamos os pés”, disse Maria Soave ao citar a frase do Papa Francisco presente na Evangelii Gaudium: “Quando nós abraçamos a carne sofredora dos pobres, estamos abraçando Cristo”.


Equipe de Comunicação

José Carlos Correia Paz



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