“A espiritualidade é um jeito de viver em sociedade, são valores que nos ensinam a viver”

Anderson Augusto, artista que fez o painel do Curso de Verão 2020, explica detalhes da obra que ilustrou o mutirão deste ano.

Foto: José Iago

A ideia é que o painel tivesse figuras que representassem diversidades. Por conta do tempo, ele não conseguiu juntar todas as que queria, mas pôde colocar algumas. “Eu dei destaque a uma ‘Mãe de Santo’, por todo o massacre que está sendo feito com as religiões de matriz africana, e o povo de rua”, explicou Anderson.


O painel traz o diálogo encontrado em uma mesa de partilha, onde cada um leva alguma coisa. Na parte de trás, pessoas de religiões diferentes, judeus, uma mulher muçulmana, um frei franciscano, uma monja budista que se conecta com uma indígena, e a simbologia de que a cidade e o campo fazem parte de um todo e não devem ser pensados separadamente, “as lutas se refletem umas nas outras”, disse.


“Eu coloquei entrando no painel uma mulher indígena que pega na mão daquela monja e que olha atentamente para ela, escutando. Atrás dela uma árvore pegando fogo, simbolizando todas as queimadas, este desmatamento autorizado pelos grandes grupos agrícolas, que se apropriam destas terras. Aí vem aquela imagem do tamanduá que um fotógrafo registrou quando ele fugia do fogo, já cego e meio queimado, eu o coloquei ali para representar a questão de todas as criaturas que sofrem com esse projeto de sociedade onde tudo vira mercadoria, a natureza, os recursos e as pessoas”, contou.


Outro detalhe a ser destacado do painel, são as cores utilizadas, tudo e todos estão no mesmo tom, o que Anderson explica que também tem um porquê. “Eu coloquei os povos de várias etnias, só que eu não pintei todo mundo da sua cor de pele, eu pintei todo mundo com calor e luz, porque o encontro ilumina todo mundo”, explicou.


Ele contou ainda que algumas pessoas o questionaram, em uma observação por ele considerada justa, do porque o povo negro não está negro. “Eu usei as mesmas tintas, o amarelo limão, o vermelho e o laranja, que pra mim traz a ideia da espiritualidade, e aí eu usei a mesma tinta pra todo mundo, um símbolo de que todo mundo é tomado pela luz. A minha ideia era colocar muitas cores em todo mundo, só que não deu tempo”.


O painel foi pintado em algodão, a medida dele inteiro é 4mx6m, mas as telas usadas foram divididas em três, para facilitar para enrolar, a tinta usada foi acrílica fosca. Anderson explica que não teve muito tempo para pensar, só para agir, e que teve a ajuda da Gabriela Miranda, uma estudante de Artes de Belo Horizonte.


“Ela me deu uma força incrível e pra ela também foi uma experiência boa, ela nunca tinha pintado painel grande, e fez lembrar-me da época em que eu me desafiei a pintar, e foi muito bom, porque realmente trabalhar com o outro me dá uma energia boa, porque você tem um feedback, a pessoa te dá opinião”.


Sobre a mensagem geral que quis passar no painel, Anderson explica que vê “as religiões como grandes guardiãs de culturas de povos e projetos de sociedade. A gente tem que estar atento, elas guardam saberes de vida e a gente precisa ouvir o diferente. Claro que todos nós temos limites e defeitos, as religiões têm suas luzes e sombras, mas eu acho que é no encontro com o outro que a gente vai melhorando”.


Ele falou também sobre a importância de se desconstruir e estar aberto ao diferente. “Todo mundo se transforma, mas tem que ser a partir de si mesmo, não de imposição. A espiritualidade é um jeito de viver em sociedade, são valores que nos ensinam a viver. A gente precisa beber um pouco do pote do outro e precisa ter essa liberdade de que a gente não tem que ser enquadrado em nada, a gente tem que ser enquadrado no bem, no amor, no justo, no belo, na dignidade. Quando uma religião se sobrepõe a outra e cria violência, está errado, tem alguma coisa que tem que mudar”.


Anderson e a sua arte



Foto: Matheus Tarrão

A arte está presente na vida de Anderson desde que ele era muito jovem: “a arte sempre fez parte da minha vida, eu nunca pude parar para estudar muito arte, mas eu conheci pessoas, artistas e tive um grande laboratório e escola, que foi o Curso de Verão. Aqui eu coloquei a mão na massa pra pintar painéis junto com o Domingos, Adélia, Elda”, contou.


A história de Anderson com o mutirão começou em 1989, quando já contribuiu na pintura do painel. Com um sorriso emocionado, ele conta sua primeira experiência: “o Domingos [Sávio] veio pra cá, nós começamos a pintar o painel uma semana antes, o Curso naquela época era ainda 15 dias, e foi aquele do ecumenismo ‘Oikumene’”, contou.


Ele explica que o painel trazia um altar, com várias pessoas em volta e um trabalhador rural morto na frente, o contexto trazia um diálogo entre a vida urbana e rural. “Ali eu fui superando o medo de fazer estes trabalhos grandes assim, foi em 89”, contou.


Anderson conta também que alguns painéis foram feitos coletivamente. “Antigamente era feito de forma mais coletiva, depois pela dificuldade de a gente se encontrar começamos assumir em duplas ou individualmente a responsabilidade pelo painel daquele ano. Tive uma experiência interessante: uma vez eu projetei um painel e quem executou foram artistas do Nordeste, eu só fiz o projeto. Depois a gente foi se juntando por área, então quando tem alguém, um ajuda o outro”, disse.


Sobre a produção do painel deste ano, Anderson explica que foi uma verdadeira loucura. “Além de toda a pressão da conjuntura de 2019, onde todo mundo estava desgastado mental, espiritual e afetivamente foi um grande peso, e eu trabalhando muito, por um momento achei que não fosse conseguir fazer nada”, contou.


Ele classificou como um exercício de superação de limites, “a gente tá quase que em ambiente de guerra, então é isso, você tem que ir, você tem que fazer, eu estava tentando achar de onde tirar força, eu estava lutando pra trazer alguma coisa”, explicou.


O painel foi feito em dois dias e meio, um dia enquanto viajava Anderson organizou as ideias e foi gravando em áudio para não esquecer. Ele conta que não conseguiu colocar tudo o que planejou, mas que deu pra colocar uma boa parte das ideias, que se resumiam em trabalhar as relações, a espiritualidade como encontro.


Sobre as inspirações ele explica que sempre se encantou com a ideia da mesa, da partilha, que é trabalhada em muitas religiões. “Eu conheci uma experiência em Belo Horizonte, de uma artista plástica, Thereza Portes que sempre faz uma mesa na rua, a mesa é bordada primeiro com frases das pessoas, e depois muitas pessoas chegam com coador [de café], xícara, caneca, pão, bolo e esta mesa é colocada na rua e todo mundo que passa na rua come”.


Ele conta que ficou encantado com esta experiência e a partir da memória da ‘Mesa de Thereza’, ele colocou no painel “a mesa de café num fundo frio da cidade onde as pessoas quase não se encontram, vivem dentro das suas casas. A ideia da espiritualidade tem que ir pra rua, temos que encontrar as pessoas, e fazer dos espaços públicos, lugar de encontro”.


Outra inspiração para ele foi a Feira da Reforma Agrária que acontece em São Paulo, e foi proibida em 2019. “É uma experiência de espiritualidade, um clima incrível, um projeto de sociedade, porque, é comida como eixo, e de todas as culinárias do Brasil, com os produtos orgânicos, na luta pelo direito à alimentação saudável, dentro de um conflito de classes porque foi aqui em Perdizes, conquistando politicamente as pessoas, com muita arte, muita música, muita pintura, então essa foi a ideia”, explicou.


Equipe de Comunicação

Ana Carolina Rodrigues



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